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quarta-feira, 4 de abril de 2012

Conto III




   O quarto era sua prisão. Não havia qualquer tipo de grades nas janelas ou portas trancadas, nada disso poderia prender uma alma. Mas vivia como numa eterna solidão.

   Sempre rabiscando papéis, sempre colocava algum sentimento na ponta do lápis e os transformava em algum verso ou poesia, e quase sempre de dor.

   Sempre fingia um sorriso... Todos fingiam que acreditavam nesse sorriso, assim vivia.

   Foi em certa noite, sentado no lugar mais obscuro de uma margem, a lua refletida, se banhando no lago... Sentiu uma brisa e com ela um leve perfume, adocicado, marcante. Lentamente levantara sua cabeça e observara a outra margem, seu coração disparara, era ela.

   Perguntava-se se era um sonho, mas seu coração lhe dizia que era real. Após um breve piscar de olhos, sentia a respiração dela ao seu lado, suave.

   Chegara mais perto. Um leve sussurro em seu ouvido, um outro fechar de olhos, mas dessa vez ela se fora.
A voz dela soou como um chamado. Seu desejo era atende-la. Teria coragem? – Se perguntava.

   Não aguentava mais aquele quarto úmido e vazio. Não queria mais saber das poesias que traziam as desagradáveis lembranças.

   Ela aparecera no meio do lago, estendendo-lhe a mão. Ele se levantara devagar, não via mais nada além dela. Seu coração se acalmara. Caminhou na direção dela, na direção do lago, sua imagem aos poucos se fundindo a da lua, certo de que aquele seria um novo mundo.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Conto II


Ele corria, rápido, desesperado.

Ao olhar para trás nada se podia ver. Mesmo assim corria.

O coração fazia uma tremenda pressão em seu peito.
Teria um lugar para se esconder desse destino?

Sempre pensara que poderia ser invencível. Descobriu após uma noite que não era assim que a vida funcionava...

Olhara para trás, reparara que o caminho percorrido é o teu passado. Nesse momento em que vive, o passado e o futuro estão mais próximos, a velha Dama não descansa, ela até poderia adiar seu trabalho, mas ela um dia iria buscá-lo.

Não havia lembranças dignas de serem deixadas em vida.

Aos poucos a corrida tornou-se caminhada. Mais uma vez olhou para trás, mas se descuidou, tomou o caminho mais curto. Encontrou enfim a Dama.

Não era aquela de capuz negro que imaginara.

Era bela, e naquele momento sentiu a salvação. Ela lhe dera a mão, ele a pegou, e dessa vez sem olhar pra trás, rumou em um novo caminho...

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Conto I



Era madrugada vazia, mergulhada num silêncio profundo...

Ela estava deitada, camuflada entre os lençóis. Era momento de dor. O abajur aceso. Segurava um pequeno espelho na mão esquerda, um revólver na direita. Seria rápido, ninguém notaria sua ausência.

Sentiria dor?

Ela já não se importava, já estava entorpecida com as dores que a vida ironicamente lhe presenteou. 

Olhou uma última vez para o retrato de cabeceira, um homem a olhava com duas meninas ao seu lado. Quanto tempo faz mesmo? – pensou. Não havia como salvá-los.

O cano do revólver colado ao lado de sua têmpora direita, era gelado, isso ainda podia sentir...

O silêncio da madrugada quebrou-se, mas foi apenas uma fração de segundo.
Ninguém se importaria com isso.

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